No coração histórico de Taubaté, ergue-se um dos símbolos mais antigos da presença negra na região do Vale do Paraíba: a Igreja de Nossa Senhora do Rosário.
Ou, ao menos, o que resta dela.
Fechada há mais de duas décadas, com estrutura comprometida e interditada para uso religioso, a igreja carrega não apenas séculos de história — mas também o peso do abandono institucional e do esquecimento coletivo.
Esta não é apenas uma construção antiga. É um monumento erguido por escravizados e ex-escravizados no início do século XVIII. Um patrimônio que nasceu da fé de homens e mulheres negros em meio à violência da escravidão.
Hoje, permanece em silêncio.

A igreja construída pelos “Homens Pretos”
A primeira capela dedicada a Nossa Senhora do Rosário foi construída entre 1700 e 1705 pela Irmandade de Nossa Senhora dos Homens Pretos.
Essas irmandades religiosas tinham papel fundamental na sociedade colonial. Eram espaços de organização, sociabilidade, assistência mútua e preservação cultural. No caso da Irmandade dos Homens Pretos de Taubaté, seus membros eram majoritariamente escravizados, libertos e pobres.
Num período em que a população negra era privada de direitos básicos, essas confrarias funcionavam como espaço de dignidade coletiva.
A igreja nasceu dessa necessidade.
Inicialmente instalada como um altar lateral na igreja matriz, a irmandade lutou até conquistar templo próprio. A provisão do bispo do Rio de Janeiro, em 20 de agosto de 1705, oficializou o compromisso da irmandade de ornamentar e manter a igreja que eles próprios edificaram.
Foi a fé transformada em arquitetura.

Arquitetura e valor histórico
A construção atual data de 1882, quando o templo ganhou o formato arquitetônico predominante até hoje.
O edifício apresenta características do século XIX, com predominância do gosto neoclássico e detalhes historicistas, como janelas com arcos neogóticos. A técnica construtiva inclui taipa de pilão, frontão triangular, pilastras com frisos clássicos, capitéis ornamentados e arco cruzeiro separando a nave da capela-mor.
Não se trata apenas de estética.
É um testemunho material da evolução urbana de Taubaté e da permanência da presença negra na formação da cidade.
A igreja já foi:
- Paróquia da Diocese de Taubaté (desde 1925)
- Catedral Provisória em 1940, durante reformas da Catedral de São Francisco das Chagas
- Um dos templos religiosos mais importantes do município
Hoje, encontra-se fechada para restauração.
Mas a restauração nunca chega.

O contexto social: escravidão, economia e irmandades
No século XIX, Taubaté se transformou em um dos polos da economia cafeeira do Império. Em 1854, o município já contava com 17.700 moradores, dos quais mais de 4.300 eram escravizados — cerca de 30% da população.
A Irmandade do Rosário dos Pretos funcionava como espaço estratégico de circulação social. Escravizados, libertos, pardos e até brancos participavam da confraria.
Ali, eram eleitos reis, rainhas, juízes, juízas. Havia hierarquia, organização, registros formais. A igreja não era apenas espaço religioso. Era espaço político e social.
Era onde pessoas escravizadas encontravam um mínimo de autonomia dentro de um sistema brutal.
Ignorar esse patrimônio é ignorar essa história.

Reformas ao longo do tempo — e o abandono recente
Ao longo dos séculos, a Igreja do Rosário passou por diversas reformas:
- Reforma após deterioração da primeira capela (1860–1882)
- Reformas entre 1930 e 1938
- Nova intervenção entre 1950 e 1953
- Fechamento para reformas em 2012
Mas, nas últimas décadas, a igreja permanece interditada.
O próprio material acadêmico reconhece que parte da estrutura está comprometida. Ainda assim, não há solução definitiva.
Enquanto outros prédios históricos da cidade recebem intervenções, a Igreja do Rosário aguarda.
E aguarda.
E aguarda.

Patrimônio reconhecido — mas não preservado
A igreja é oficialmente reconhecida como patrimônio histórico e cultural de Taubaté.
Pesquisas acadêmicas, registros municipais e documentos da Diocese comprovam sua relevância.
Mas reconhecimento formal não garante conservação prática.
O resultado é visível:
- Estrutura deteriorada
- Uso religioso suspenso
- Patrimônio fechado à população
- Memória isolada atrás de portas trancadas
A pergunta que permanece é simples: quem é responsável?
A Diocese de Taubaté?
O poder público municipal?
Órgãos de preservação?
Ou todos?

O que está em jogo
Não se trata apenas de um prédio antigo.
Trata-se da memória negra da cidade.
Trata-se de reconhecer que Taubaté foi construída também por mãos escravizadas.
Trata-se de assumir que a história oficial, muitas vezes, privilegiou outras narrativas — enquanto patrimônios ligados à população negra ficaram à margem.
Quando um patrimônio como esse é abandonado, não é apenas a estrutura que se deteriora.
É a identidade coletiva.
O silêncio institucional
Mais de vinte anos de interdição.
Mudaram prefeitos.
Mudaram bispos.
Mudaram secretários de cultura.
Mudaram discursos.
Mas a igreja continua fechada.
Faltam recursos?
Falta projeto?
Falta vontade política?
A população tem o direito de saber.
Transparência é obrigação quando se trata de patrimônio histórico.
Preservar não é favor. É dever.
A Igreja de Nossa Senhora do Rosário não é apenas um símbolo religioso. É um marco da presença negra na história de Taubaté.
Foi construída por escravizados.
Foi mantida por libertos e pobres.
Foi centro de organização social.
Foi espaço de resistência cultural.
E hoje, permanece esquecida.
Preservar essa igreja não é luxo.
Não é gasto supérfluo.
Não é pauta ideológica.
É responsabilidade histórica.
Uma cidade que não preserva seus patrimônios mais antigos e simbólicos compromete sua própria memória.
A Igreja do Rosário precisa de restauração.
Mas, acima de tudo, precisa de prioridade.
E de respeito.
Texto: Dimas Valgas

