04/03/2026

DESCASO HISTÓRICO: IGREJA DO ROSÁRIO DOS HOMENS PRETOS DE TAUBATÉ ABANDONADA HÁ 16 ANOS GERA REVOLTA E PROTESTOS

Por Dimas Valgas

O abandono do patrimônio é também o abandono do povo: a situação da Igreja do Rosário dos Homens Pretos de Taubaté escancara o descaso do poder público

No coração de Taubaté, um dos símbolos mais importantes da história popular e da resistência negra da cidade segue de portas fechadas há mais de uma década. A Igreja do Rosário dos Homens Pretos, patrimônio histórico e cultural, hoje agoniza diante da omissão do poder público e da falta de políticas concretas de preservação.

No dia 30 de março, ocorreu a terceira manifestação em defesa da Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Taubaté. O ato reuniu moradores, movimentos culturais e ativistas que denunciaram o abandono e exigiram providências urgentes. A mobilização é reflexo direto da indignação popular diante do risco concreto de perda de um patrimônio que pertence ao povo.

Construída pela Irmandade dos Homens Pretos no início do século XVIII, a igreja é tombada pelo município, mas segue abandonada há 16 anos, oferecendo risco real de desabamento. Sua história expressa o sincretismo religioso e a resistência do povo negro, que, durante o período colonial, encontrava nas irmandades um espaço de organização coletiva, solidariedade e luta por dignidade.

Mais do que um prédio antigo, o Rosário é memória viva — ou deveria ser. O que vemos hoje é o retrato do descaso: estrutura deteriorada, ausência de manutenção e nenhuma resposta efetiva das autoridades. Enquanto isso, discursos oficiais seguem cheios de promessas vazias e ações de fachada, que não se traduzem em investimentos reais na preservação da história do povo trabalhador.

É preciso dizer com todas as letras: preservar o patrimônio histórico não é favor, é obrigação. E quando esse patrimônio carrega a história da população negra e trabalhadora, o abandono ganha contornos ainda mais graves — é também uma forma de apagamento e silenciamento.

A responsabilidade é compartilhada entre Prefeitura, Estado e órgãos de preservação. Não basta empurrar a culpa de um lado para o outro enquanto o tempo destrói o que ainda resta. É necessário transparência, investimento imediato e um plano concreto de restauração e reabertura do espaço.

A luta pela preservação da Igreja do Rosário é também uma luta sindical e popular. Defender a memória é defender identidade, cultura e o direito do povo de existir e contar sua própria história.

Seguiremos denunciando, cobrando e mobilizando. Porque quando o patrimônio do povo é abandonado, não é só um prédio que desmorona — é a dignidade de uma história inteira.

Nenhum direito a menos. Nenhuma memória apagada.